Existe uma imagem que resume tudo sobre Oxumaré: uma cobra que morde a própria cauda.
Não é horror. Não é autodestruição. É um dos símbolos mais antigos e profundos da humanidade — o Ouroboros — que representa a continuidade eterna, o ciclo sem fim, o movimento perpétuo que sustenta o universo.
Oxumaré é o orixá desse movimento. Da transformação que nunca para. Da serpente que ao mesmo tempo rasteja na terra e se eleva como arco-íris no céu. Do ser que é masculino e feminino, dia e noite, começo e fim — não por confusão, mas por completude.
Neste guia completo você vai descobrir:
- Quem é Oxumaré — origem, significado e os muitos nomes
- A lenda completa do nascimento de Oxumaré
- Os seis meses no céu e os seis meses na terra — o ciclo semestral
- O Ouroboros e o Brajá — os símbolos sagrados explicados
- A dualidade de Oxumaré — e por que ele NÃO é Oxum
- Oxumaré na Umbanda e no Candomblé — diferenças importantes
- A saudação “Arroboboi” — origem e significado
- Filhos de Oxumaré — dons, desafios e a coluna vertebral
- Oferendas, ervas e rituais
- FAQ com as perguntas mais buscadas
Quem é Oxumaré? Origem e Significado

O Orixá da Serpente e do Arco-Íris
Oxumaré (em iorubá: Òṣùmàrè) é o orixá da renovação, da dualidade, do movimento contínuo e da riqueza. É a cobra arco-íris — metáfora perfeita de um ser que une dois mundos: a cobra que rasteja na terra e o arco-íris que se eleva no céu, ligando a água ao firmamento.
Seu nome tem origem possivelmente da junção entre Oxú (monte, morro) e outras raízes iorubás — uma etimologia que, como o próprio orixá, guarda mistério e múltiplos sentidos.
Filho de Nanã Buruquê e irmão de Omolú/Obaluaiê e Ossain, Oxumaré é um dos orixás mais fascinantes e menos compreendidos do panteão afro-brasileiro. Sua natureza dual e paradoxal desafia categorias simples — e é justamente por isso que ele é tão poderoso.
Seus Muitos Nomes
Oxumaré é conhecido por diferentes nomes nas diversas tradições:
- Òṣùmàrè — grafia iorubá original
- Oxumarê — variação comum no Brasil
- Dan — na cultura jeje (Benin/Daomé), onde é um dos voduns mais importantes
- Dambessen — outra forma jeje, assimilada ao Candomblé
- Angorô / Angoro — no Candomblé Angola (Banto), onde representa a serpente sagrada dos céus
- Hongolo / Nkongolo — no kimbundo e kikongo, línguas bantas que significam “arco-íris”
- Ajé Salugá — em Ifé, como o distribuidor de riqueza
Essa multiplicidade de nomes revela algo essencial sobre Oxumaré: ele transcende uma única tradição. Enquanto a maioria dos orixás iorubás chegou ao Brasil por um único caminho, Oxumaré chegou por vários — pela tradição nagô, pela jeje e pela angola — cada uma reconhecendo nele a mesma força fundamental do universo.
A Lenda do Nascimento de Oxumaré
Esta é a lenda mais importante de Oxumaré — aquela que explica sua natureza, seus poderes e sua extraordinária beleza.
Depois que Nanã Buruquê abandonou Omolú na praia — o filho que nascera coberto de chagas — Oxalá, que havia se envolvido com ela, lançou uma praga sobre a orixá ancestral: ela teria mais filhos com dificuldades. E assim foi.
Quando Oxumaré nasceu, veio sem braços e sem pernas — seu corpo tinha a forma de uma serpente, longo e fluido, mas sua essência era humana. Mais uma vez, Nanã, decepcionada, abandonou o filho.
Mas Oxumaré era diferente de Omolú. Não precisou de ninguém para sobreviver. Com agilidade natural que nenhum ser com membros teria, aprendeu a caçar rastejando, a nadar com destreza, a subir em árvores com facilidade. Plantava sua comida preferida — a batata doce — com uma habilidade que surpreendia todos que o observavam.
Orunmilá, o orixá da profecia e da sabedoria, observou o menino com admiração crescente. Viu naquele ser aparentemente defeituoso uma perfeição que a maioria não enxergava — a capacidade de adaptar-se completamente ao ambiente, de encontrar beleza e abundância em qualquer circunstância.
Comovido, Orunmilá intercedeu. Com sua magia, transformou Oxumaré em um dos seres mais belos do universo — e lhe deu uma missão sagrada: levar e trazer as águas dos céus ao palácio de Xangô. Oxumaré tornou-se o orixá responsável pelo ciclo da chuva — ele busca as águas dos mares, as eleva ao céu, e quando retorna atravessando a atmosfera, seu corpo se manifesta como arco-íris.
A lenda ensina: a aparência de defeito pode ser o disfarce de uma capacidade extraordinária. Oxumaré não precisou de ninguém para se fazer — a adversidade forjou nele uma adaptabilidade que o tornaria mais poderoso do que os que nasceram com tudo.
Os Seis Meses no Céu e os Seis Meses na Terra
Esta é uma das características mais fascinantes e mais buscadas de Oxumaré — e uma das mais mal compreendidas.
Metade do ano, Oxumaré vive no céu como arco-íris. É seu aspecto masculino, luminoso, transcendente — aquele que une o céu e a terra, que carrega as águas para as nuvens, que se manifesta como beleza colorida após a chuva. Nesta fase, ele atua no plano espiritual, mais próximo do divino, mais elevado.
Na outra metade do ano, Oxumaré desce à terra como cobra. É seu aspecto feminino (na interpretação do Candomblé jeje), rastejante, terreno, material — aquele que percorre os vales, os rios, os solos úmidos. Nesta fase, ele está mais próximo da matéria, dos ciclos físicos da vida.
Como compreender isso na prática?
Na visão do Candomblé (especialmente jeje): é uma divisão literal — seis meses masculino, seis meses feminino. A forma serpentina seria a fase mais negativa e perigosa do ciclo, onde Oxumaré provoca tudo que é perigoso e instável.
Na visão da Umbanda: esse ciclo semestral representa o ciclo da Vida em si. Da junção entre masculino e feminino — o arco-íris e a cobra, o céu e a terra — é que a vida se perpetua. Oxumaré carrega a dualidade como síntese, não como conflito.
O que é consenso em todas as tradições: sem o movimento de Oxumaré, o ciclo das chuvas pararia. Sem a cobra que leva as águas ao céu, não haveria chuva. Sem o arco-íris que anuncia o retorno das águas, não haveria esperança após a tempestade.
O Ouroboros: A Serpente que Morde a Própria Cauda
O símbolo mais poderoso de Oxumaré não é apenas o arco-íris, nem apenas a cobra. É a sua combinação perfeita: o Ouroboros — a serpente que morde a própria cauda.
O Ouroboros é um dos símbolos mais antigos da humanidade — encontrado no Egito Antigo, na Grécia, na tradição nórdica, na alquimia medieval e na mitologia iorubá. Onde quer que civilizações antigas buscaram representar a eternidade e o ciclo infinito, a cobra que morde a própria cauda emergiu.
Para Oxumaré, o Ouroboros representa:
- A continuidade do ciclo vital — fim e começo se fundem no mesmo ponto
- A eternidade do movimento — não há pausa, apenas transformação
- A harmonia dos opostos — a boca (criação) e a cauda (destruição) no mesmo ser
- O sustento do universo — Oxumaré, enrolado ao redor do mundo, sustenta o céu sobre a terra
Segundo algumas lendas, foi Oxumaré que deu forma ao mundo físico. Enrolando-se ao redor da terra primordial, reuniu a matéria dispersa e deu forma ao globo. Rastejando pelo mundo, esculpiu os vales e desenhou os rios. Sem esse movimento serpentino primordial, o mundo seria informe.
O Brajá e os Símbolos Sagrados
O Brajá — O Colar de Búzios
O símbolo de adorno mais característico de Oxumaré é o Brajá — um colar feito inteiramente de búzios entrelaçados, que imita as escamas de uma serpente. É mais do que joalheria ritual: é a representação da prosperidade (os búzios eram a antiga moeda africana) e da forma serpentina do orixá.
Quando um filho de Oxumaré usa o Brajá, carrega na pele a essência do orixá — a riqueza, o movimento, a escama-moeda da serpente sagrada.
O Ebiri e a Idraká
A idraká é a lança sagrada de Oxumaré — e em seu cabo, duas serpentes entrelaçadas representam a dualidade masculina/feminina. Esse mesmo símbolo — duas serpentes em espiral ao redor de um eixo — é idêntico ao Caduceu de Hermes na mitologia grega e ao bastão de Asclépio da medicina. O mesmo arquétipo da dualidade em movimento apareceu em culturas separadas por oceanos.
A Cobra no Candomblé
Um detalhe prático de grande importância: no Candomblé, não se mata cobra. Qualquer cobra encontrada no terreiro ou ao redor dele é respeitada e removida com cuidado — jamais morta. Ela pertence a Oxumaré, e matar sua representação viva seria uma ofensa direta ao orixá.
A Dualidade de Oxumaré — E Por Que Ele NÃO É Oxum
Este é um dos pontos de maior confusão e merece atenção especial.
Oxumaré e Oxum são divindades completamente distintas. Algumas correntes de Umbanda costumam dizer que Oxumaré é “uma forma de Oxum”, mas no Candomblé tradicional e em todas as tradições mais próximas das origens africanas, essa associação é categoricamente rejeitada.
A confusão vem de algumas semelhanças superficiais:
- Ambos têm “Ox” no início do nome
- Ambos estão associados à água e à prosperidade
- Ambos têm conexão com Xangô
Mas as diferenças são fundamentais:
| Aspecto | Oxumaré | Oxum |
|---|---|---|
| Origem | Nagô e Jeje/Daomeana | Iorubá (Nagô) |
| Domínio da água | Águas do ciclo da chuva (intermediário) | Rios e cachoeiras (direta) |
| Gênero | Dual — ciclo masculino/feminino | Feminina |
| Símbolo central | Cobra + arco-íris | Espelho (abebê) |
| Relação com riqueza | Abundância e movimento dos ciclos | Ouro e amor |
| Cor principal | Amarelo e verde (+ todas as cores do arco-íris) | Amarelo dourado |
| Saudação | Arroboboi! | Ora Yê Iê Ô! |
São orixás irmãos em dignidade — mas completamente distintos em natureza, culto e origem.
Para conhecer Oxum em profundidade: Quem é Oxum? A Rainha das Águas Doces
Oxumaré na Umbanda e no Candomblé
Oxumaré na Umbanda
Na Umbanda, Oxumaré é cultuado como Trono Masculino do Amor — o orixá que, em parceria com Iansã (a feminina do mesmo trono), regula o movimento e o ritmo da criação.
Segundo a cosmologia umbandista, Iansã atua para dar movimento e direcionamento à Criação, enquanto Oxumaré dá ritmo e cadência a esses movimentos. Ela nos direciona no caminho da evolução; ele impõe o ritmo, dilui desequilíbrios e renova os passos.
Na Umbanda, a dualidade de Oxumaré é interpretada como o ciclo da Vida — a necessidade da junção entre opostos para que a vida se perpetue. Não é uma alternância literal de gênero, mas a expressão de que toda existência contém dentro de si o masculino e o feminino, o alto e o baixo.
Seus dois fatores principais na Umbanda são o Diluidor e o Renovador:
- A onda diluidora absorve e dilui as negatividades e desequilíbrios dos seres
- A onda renovadora reconstrói e revitaliza o que foi diluído
Essas duas ondas movem-se simultaneamente — como duas serpentes entrelaçadas em torno de um eixo. Daí o símbolo da idraká com as duas cobras.
Oxumaré no Candomblé
No Candomblé, especialmente nas nações Ketu e Jeje, Oxumaré tem uma presença muito mais ritualística e complexa.
No Candomblé Jeje, o vodum Dambessen foi assimilado como Oxumaré — o que o torna uma figura de “dupla cidadania teológica”. Ele é simultaneamente um orixá nagô e um vodum jeje, refletindo a riqueza do Candomblé como síntese de múltiplas tradições africanas.
A dualidade semestral é mais literalmente honrada no Candomblé — com rituais específicos para cada fase do ciclo de Oxumaré.
| Aspecto | Umbanda | Candomblé |
|---|---|---|
| Papel | Trono Masculino do Amor, ciclo da vida | Serpente cósmica, ciclo das chuvas |
| Dualidade | Simbólica — síntese dos opostos | Literal — seis meses masculino/feminino |
| Par | Iansã (no trono do amor) | Omolú (irmão, par nos rituais) |
| Dia | Terça-feira (algumas tradições: quinta) | Terça-feira |
| Origem reconhecida | Nagô e Jeje | Nagô, Jeje e Angola (Angorô) |
Os Atributos Sagrados de Oxumaré
Cores
As cores de Oxumaré são todas as cores do arco-íris — mas especialmente amarelo e verde como cores primárias associadas. O amarelo representa a prosperidade e o arco-íris; o verde, a renovação e a vida.
Em alguns terreiros, usa-se amarelo e preto — representando a alternância entre luz e sombra, a dualidade em seu aspecto mais contrastante.
Domínios
- O ciclo das chuvas — leva as águas dos mares ao céu e as devolve como chuva
- A comunicação entre céu e terra — a ponte do arco-íris
- A riqueza e a prosperidade — o ouro no fim do arco-íris
- A renovação e a transformação — como a serpente que troca a pele
- A continuidade — o Ouroboros que nunca para
- A coluna vertebral humana — rege a espinha dorsal e o movimento do corpo
- Os ciclos da natureza — as estações, as marés, os ritmos do planeta
Oxumaré e a Coluna Vertebral
Este é um domínio de Oxumaré que fascina e surpreende: ele rege a coluna vertebral humana. Não por acaso — a coluna é o eixo do corpo humano, o ponto em torno do qual todo o movimento se organiza. Como Oxumaré é o orixá do movimento e da flexibilidade cósmica, seu domínio sobre a espinha é perfeitamente coerente.
Nos terreiros, quando filhos de Oxumaré estão em transe com seu orixá, podem se movimentar de forma absolutamente impressionante — como se não tivessem presos aos ossos, com uma fluidez e uma ondulação que evoca diretamente o movimento de uma cobra. Quem assiste compreende imediatamente porque Oxumaré rege esse domínio.
Dia, Data e Saudação
- Dia da semana: Terça-feira (em alguns terreiros, quinta-feira)
- Data festiva: 24 de agosto (São Bartolomeu)
- Saudação: “Arroboboi Oxumaré!” / “Àróbo bo yi Òṣùmàrè!”
- Significado: “Salve o Senhor do Arco-íris!” ou “Salve o Senhor dos Ciclos!” / “Vamos cultuar Oxumaré, o intermediário que se estica!” (como o arco-íris)
O Sincretismo com São Bartolomeu
São Bartolomeu é um dos apóstolos de Jesus — e sua iconografia o retrata frequentemente com uma cobra ou serpente, além de ser associado à esfolação (troca de pele). As serpentes e a renovação que a troca de pele representa criaram a correspondência natural com Oxumaré.
A data de celebração de São Bartolomeu — 24 de agosto — é celebrada como o Dia de Oxumaré nos terreiros que seguem esse sincretismo.
Para entender o sincretismo em profundidade: Santos Católicos na Umbanda: O Guia Completo
As Oferendas para Oxumaré
As oferendas de Oxumaré refletem sua natureza: coloridas, duplas, da terra e da água, sem violência. A dualidade aparece até nas oferendas — frequentemente apresentadas em pares.
Alimentos Sagrados
Batata doce é a principal oferenda — desde a lenda do nascimento, quando o menino Oxumaré sobreviveu plantando suas próprias batatas. Preparada de diversas formas:
- Farofa de banana da terra: bananas cozidas no açúcar cristal misturadas com farinha de mandioca, azeite doce e dendê
- Pasta de batata doce modelada como serpentes: batata doce cozida e amassada com feijão fradinho e dendê, moldada em duas cobras formando uma circunferência (uma com a cabeça na direção do rabo da outra — a forma do Ouroboros)
- Banana — especialmente banana-da-terra
- Feijão fradinho com azeite de dendê
Outras Oferendas
- Flores de todas as cores juntas — o arco-íris em forma vegetal
- Velas de todas as cores ou amarelas e verdes
- Água — bebida ritual principal (pureza do ciclo)
Onde Entregar
As oferendas de Oxumaré são entregues preferencialmente:
- Na floresta, de preferência próximo a nascentes ou águas doces
- Em locais onde há arco-íris — colinas, campos abertos após a chuva
- No topo de morros — próximos ao céu, domínio do arco-íris
As Ervas Sagradas de Oxumaré
As ervas de Oxumaré são aquáticas, rastejantes e de múltiplas cores — como sua natureza dual:
- Cipó de mil-homens (Aristolochia cymbifera): trepadeira sinuosa, como a serpente
- Erva-cobra (Mikania glomerata): diretamente nomeada pela serpente sagrada
- Avenca (Adiantum capillus-veneris): planta delicada de lugares úmidos e sombreados
- Aguapé (Eichhornia crassipes): planta flutuante das águas paradas e lentas
- Liane (cipó geral): qualquer planta trepadeira e flexível evoca Oxumaré
- Musgo aquático: da interface entre terra e água, o domínio de Oxumaré
- Helicônia (Heliconia): flores tropicais multicoloridas como o arco-íris
Para aprofundar o uso das ervas: Ervas Sagradas da Umbanda: Guia Completo
Filhos de Oxumaré: Quem São e Como São
Como Identificar um Filho de Oxumaré
Sempre pelo jogo de búzios com babalorixá ou ialorixá experiente. Filhos de Oxumaré são relativamente raros — o que os torna ainda mais especiais quando identificados.
Os Dons dos Filhos de Oxumaré
Adaptabilidade extraordinária: Como a serpente que se move por qualquer terreno e o arco-íris que atravessa qualquer nuvem, filhos de Oxumaré adaptam-se a circunstâncias que quebrariam qualquer outra pessoa. São os sobreviventes naturais — não por resistência bruta, mas por fluidez.
Transformações radicais: A dualidade do orixá se manifesta nos filhos como capacidade de mudanças de 180 graus. Podem ir da água para o vinho sem a menor dificuldade — mudar de carreira, de relacionamento, de país, de perspectiva — com uma velocidade que assombra quem não entende sua natureza.
Agilidade física e mental: Magros, ativos, de movimentos fluidos e rápidos. Mentalmente, são rápidos no raciocínio, curiosos, sempre em movimento intelectual. Como a cobra, raramente ficam parados por muito tempo.
Senso de prosperidade: Oxumaré é o orixá da riqueza e da abundância. Seus filhos têm um talento natural para atrair recursos — e uma generosidade correspondente em compartilhá-los.
Criatividade e beleza: Tendem a ser artisticamente dotados, com gosto estético refinado que envolve cores, formas e movimento. Artes visuais, dança, moda, design — áreas que combinam beleza e movimento são naturais para eles.
Olhar penetrante: Os olhos dos filhos de Oxumaré são característicos — atentos, salientes, difíceis de encarar diretamente. Há algo na intensidade do olhar que revela a serpente por trás.
Os Desafios dos Filhos de Oxumaré
Instabilidade: A mesma capacidade de mudança radical pode se tornar inconstância. Podem abandonar projetos, relacionamentos e compromissos antes de completá-los — sempre buscando a próxima transformação.
Dualidade que confunde: Por carregarem naturalmente os dois lados de tudo, filhos de Oxumaré podem ser percebidos como contraditórios ou imprevisíveis. O que para eles é fluidez natural, para os outros pode parecer falta de posição.
Sedução do perigo: Assim como a cobra encanta antes de agir, filhos de Oxumaré podem ser sedutores que não percebem o impacto que causam. “São uma cobra embrulhada num papel de presente — dão o bote sem esperar”, como descreve José Beniste.
Irritabilidade súbita: Apesar da calma aparente, quando provocados podem reagir com rapidez e intensidade surpreendentes — como um bote de cobra.
Aspecto físico típico: Tendem a ser magros, ágeis, de movimentos rápidos e graciosos. A coluna flexível é característica — dificilmente você verá um filho de Oxumaré com postura rígida.
Profissões Comuns
Dança, artes visuais, moda, design, diplomacia (a arte de unir opostos), medicina (especialmente ortopedia e fisioterapia — domínio da coluna), coaching e facilitação de mudança, empreendedorismo.
Oxumaré e Ogum — A Parceria dos Opostos
Uma das relações mais interessantes na cosmologia umbandista é entre Oxumaré e Ogum.
Ogum é o conquistador que abre caminhos com força e determinação — mas que não se preocupa com a manutenção do que conquistou. Oxumaré é a continuidade, o ritmo, a gestão do que foi conquistado.
Como descreve o Templo do Vale do Sol e da Lua: “Ogum sozinho é o grande conquistador que não se preocupa com a boa administração. Já Oxumaré necessita do impulso inicial a partir do qual flui em sua dança cósmica.” Um sem o outro não realiza plenamente.
Como Honrar Oxumaré no Dia a Dia
1. Celebre o arco-íris. Quando vir um arco-íris, pare. Respire. Diga “Arroboboi, Oxumaré!” com gratidão. É o momento mais direto de conexão com o orixá — ele está literalmente presente.
2. Acenda velas amarelas e verdes às terças-feiras. Com uma prece pedindo fluidez e renovação nos ciclos da sua vida.
3. Não tema as mudanças. A maior honragem a Oxumaré é abraçar as transformações necessárias em vez de resistir a elas. Quando perceber que um ciclo está terminando, deixe-o ir — e confie que Oxumaré já está tecendo o próximo arco-íris.
4. Ofereça batata doce. Uma batata doce cozida simples, oferecida à natureza com intenção sincera, é um gesto genuíno de conexão.
5. Respeite as cobras. Em qualquer tradição que honre Oxumaré, as cobras são sagradas. Ao encontrar uma, respeite seu espaço.
Perguntas Frequentes sobre Oxumaré
O que significa “Arroboboi Oxumaré”? É a saudação sagrada a Oxumaré. “Àróbo bo yi Òṣùmàrè” significa “Vamos cultuar Oxumaré, o intermediário que se estica!” — referência ao arco-íris que se estende entre o céu e a terra. Em tradução mais livre: “Salve o Senhor do Arco-íris!” ou “Salve o Senhor dos Ciclos!”
Oxumaré é masculino ou feminino? Depende da tradição. No Candomblé jeje, é dual — seis meses masculino e seis meses feminino. No Candomblé nagô (ketu), é iniciado como orixá masculino, embora a simbologia dual permaneça. Na Umbanda, é cultuado como Trono Masculino do Amor, mas a dualidade é honrada como síntese dos opostos, não como alternância literal.
Oxumaré é o mesmo que Oxum? Não. São divindades completamente distintas com origens, cultos, símbolos e domínios diferentes. A confusão existe em algumas correntes de Umbanda menos tradicionais, mas no Candomblé essa associação é rejeitada. Oxumaré é filho de Nanã; Oxum é filha de Iemanjá.
O que é o Ouroboros de Oxumaré? É a cobra que morde a própria cauda — símbolo da continuidade eterna e do ciclo sem fim. Para Oxumaré, representa o movimento perpétuo que sustenta o universo, o fim que se transforma em começo, a destruição que é ao mesmo tempo criação.
Por que não se mata cobra no Candomblé? Porque a cobra pertence a Oxumaré. Matar uma cobra dentro ou próximo de um terreiro seria uma ofensa direta ao orixá. Cobras encontradas em terreiros são respeitosamente removidas, nunca mortas.
Qual o dia de Oxumaré? A terça-feira é o dia principal de Oxumaré na maioria dos terreiros. A data festiva é 24 de agosto, coincidindo com São Bartolomeu no sincretismo católico. Em alguns terreiros, também é honrado às quintas-feiras.
O que Oxumaré rege no corpo humano? Oxumaré rege a coluna vertebral — o eixo de movimento do corpo humano. Por isso, filhos de Oxumaré em transe se movem com uma fluidez serpentina extraordinária, como se os ossos não existissem.
Conclusão: O Movimento que Nunca Para
Oxumaré não descansa. Não pode — o universo depende do seu movimento.
Enquanto ele leva as águas do mar ao céu, temos chuva. Enquanto ele retorna como arco-íris, temos esperança. Enquanto rasteja pela terra como cobra, os rios ganham forma e os vales se esculpem.
Quando tudo na sua vida parece estagnado, quando os ciclos parecem não ter mais movimento, quando a renovação parece impossível — é Oxumaré que você precisa chamar.
Porque ele é o próprio movimento. E o movimento nunca para.
Arroboboi, Oxumaré! 🌈🐍


